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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

What's the color of your mug?

Créditos da foto: Galaxy in a mug by Don Gru.
Fonte:
http://bighugelabs.com/flickr/onblack.php?id=254714625&size=Large


Numa manhã em que uma fina garoa tilintava na vidraça do quarto, Jozi acordou e sentiu o cheiro ocre e sóbrio dos livros empilhados ao lado do travesseiro. Ainda de olhos fechados, decidiu que naquele dia seria menor do que de costume. Então, levantou-se e trocou o salto plataforma pelas solas nuas dos pés.

Desceu as escadas com a felicidade maquiavélica e ingênua de quem roubou um livro. Pegou sua caneca transparente que guardava em cima da televisão sempre desligada. Foi até a cozinha procurar algo que preenchesse a caneca e desse-lhe cor. Adivinhou o café negro e frio da madrugada anterior dentro do bule. Serviu-se e propositalmente esqueceu do açúcar.

Jozi abriu a porta, foi até o jardim e sentou-se num banco. Ali ficou observando a caneca com o café. Pensou como era engraçado: o café preenchia a caneca, mas ainda não lhe trazia cor, visto que preto não é cor, mas sim a ausência dela. Então, Jozi riu baixinho. Nossa, estava pensando como Palomar, ou seria como Franciele?

Ao pensar nisso, Jozi sentiu o Sol aparecer entre as nuvens e secar-lhe um pouco o rosto molhado da garoa. Olhou para frente e viu Franciele entrando pelo portão. Ela usava uma comprida saia colorida que deixava apenas seus pés descalços à mostra. Na mão, trazia uma caneca pintada com todas as cores existentes. Ela nunca havia conseguido ser mono espectral. Seu olhar era cansado, como o daqueles que sentem demais.

Sem dizer uma palavra, Franciele sentou-se ao lado de Jozi. Não é que faltasse o que dizer, mas sim que elas não necessitavam de palavras para se compreenderem. Afinal, palavras haviam sido feitas para serem escritas ou tatuadas na pele.

Jozi olhou a caneca vazia de Franciele. Então, colocou metade do seu café ali dentro. Franciele sorveu tudo num único gole. O café gelado e amargo tirou um pouco do cansaço de seus olhos. Jozi retirou uma pequena chave de dentro de sua caneca, devagar colocou-a no ouvido de Franciele e girou duas vezes. Num instante, a cabeça dela se abriu e Jozi pôde retirar de lá um livrinho Amarelo que continha ao mesmo tempo toda a grandeza vazia do Universo e toda a pequeneza preenchida de Franciele.

Jozi abriu o livro e leu algumas palavras com os olhos. Retirou a primeira e a última página. Picou-as em pedaços minúsculos e adoçou o café com elas. De imediato, sua caneca transparente ganhou cor.


Texto escrito para minha grande amiga e professora Jozi. Conosco é sempre assim: uma leva o café e a outra o açúcar.

domingo, 19 de outubro de 2008

Poemãe

Concretismo de café-da-manhã.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Tea for two e um final feliz


Uma das minhas crônicas inacabadas, inspirada em uma música da Nara Leão de mesmo título.


Dez anos de sua vida dedicados àquele trabalho e, de repente, sem emprego. Sem emprego e sem ninguém para dizer “Boa noite!” quando chegasse em casa, ninguém para massagear-lhe os pés e oferecer-lhe sopa quente.

Sentado naquele pub há duas horas, ele pensava. Pensava no que faria dali em diante. Deveria procurar emprego. Pensava se havia pagado a conta de luz e se teria comida em casa. De repente, olhou para o café morno que a gorda garçonete acabara de lhe trazer. Observou a espuma e o modo como ela dançava enquanto ele dissolvia o açúcar. Sentiu o cheiro. Deteu-se nas bolhas de ar. Elas borbulhavam devagar, num ploft surdo. Seus pensamentos também borbulhavam.

Ficou ali absorto pelo café durante alguns minutos. Havia esquecido de tudo. Até que uma voz o trouxe de volta para a realidade: “Vai esfriar!”. Instintivamente olhou ao redor e observou uma jovem sentada à mesa da frente. Ela havia pronunciado aquelas poucas palavras e rapidamente voltado seus olhos para o jornal que tinha nas mãos. Ele observou-a atônito. Tinha os cabelos tingidos de vermelho um tanto desbotados. Traços leves, pele clara e divertidas sardas pipocavam-lhe as têmperas da face. Tinha uns olhos escuros e profundos, mas um tanto melancólicos. Estava sozinha.

Ele observou-a por alguns instantes. Ela sempre com os olhos no jornal. Ele voltou a mergulhar no café. Provou-o. Já estava frio. As borbulhas haviam acabado, assim como seus pensamentos haviam parado de efervescer. Lembrou da moça. Voltou a olhar para ela e flagrou-a mirando-o também. Aquele olhar era um “Sim”.

Devagar, levantou-se e a passos leves levitou pelo corredor. Seu olfato estava inebriado pelo café, mas pôde sentir um leve odor de jasmim vindo da moça. Jasmim com ferormônios. Aproximou-se dela e, antes que pudesse dizer qualquer palavra, ela convidou-o para sentar. Permaneceram em silêncio.

A garçonete aproximou-se pesadamente com o assoalho rangendo em seus calcanhares. Perguntou se a moça desejava algo para beber. 5 p.m. Ela:“Tea”. Ele: “Tea for two”. Final Feliz.